quarta-feira, 19 de agosto de 2009

SER INTOLERANTE


I

Quando eu era menino eu tinha a mania de pintar tudo o que eu via pela frente. Minhas próprias roupas eu pintava: camiseta, tênis, boné, mochila, caderno, tudo.

Eu era apenas um adolescente mais parecia um ET no meio dos outros moleques, isso, contudo nunca me rendeu coisas negativas, ao contrário, com treze anos eu ganhava minha própria grana desenhando heróis em cartolinas e vendendo para a galera do colégio, fora os gibis feitos à mão.

Tinha uma galera pesada na escola, cara de idades avançadas para estarem lá naquelas séries, mas estavam por que repetiam todo ano. Um dia o cara que era o pica grossa, que todo mundo tinha medo me viu e quis ficar meu amigo por que queria que eu pintasse um boné branco que ele tinha, isso por que eu tinha um All Star cano longo branco todo pintado à mão com tinta de tecido, cheio de desenhos loucos.

Eu fiz o boné do cara. Símbolos do Guns´n´ Roses, Metálica, Megadeth e um monte de outras coisas da minha cabeça, não ficou um espaço se quer. Quando entreguei o boné o cara ficou louco, mesmo depois de muito tempo eu o via usando, rasgado e sujo, mas o cara não tirava da cabeça; foi como se eu tivesse criado a identidade do bandido.

Quando eu entreguei o boné ele disse: “qual é o preço? Pode falar!” Eu disse: “relaxa meu, fica assim mesmo, ficou da hora né?” O cara falou, ficou massa, qualquer coisa que precisar cara eu to ai mesmo!

No ano seguinte eu tava lá no pátio da escola, a galera continuava a mesma. Não sei o que deu na cabeça de um otário, inventou de tirar onda comigo, sei lá, inveja. Sei que eu na minha, nunca gostei muito desse lance de briga, mas o infeliz invocou com a minha cara. Queria minha mochila e meus gibis. Caralho, logo meus gibis? Ele e mais dois, eu tava ferrado se querem saber. Branco, pálido e quase mijando na roupa, pensei: “que merda to fodido”.

Na hora chega um cara com um boné na cabeça todo desenhado com mais uns dez caras da escola, a escoria que não tinha nada a perder. Viu a situação toda e ai virou um inferno.

Eu sei que esse moleque que eu pintei o boné não prestava, era burro e era brigão pra caralho, só que comigo o cara tinha um respeito pacas. Naquele dia deixou claro para todo mundo com quem ninguém poderia mexer na porra daquela escola.

A verdade é que em toda a minha vida eu só não sou bandido por que encontrei na arte a forma de ser intolerante com as coisas que não concordo. Como dito em meu livro A PEDAGOGIA DO ROCK:

“Se quer descarregar seu ódio contra o mundo, faça isso através da arte e nunca, nunca contra pessoas que não têm nada a ver com as suas lastimas!”.


II


Num mundo onde as coisas sao construidas sob a empresa do comércio, resta a arte ser marginal, suja, pobre, doente; pelo menos a boa arte.
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Num mundo onde o amor e a caridade são coisas meramentes utópicas e o respeito, o cuidado e a observância a lei da igualdade são escassas, resta a poucos se excluirem mesmo e viverem embaixo da escuridao do seu próprio desterro, mas nao se enganem, não iremos morrer desta vez como mártires em nome de ideologia alguma, vamos ficar vivos. Isso sim, pois é vivos que temos condiçoes de ser intolerantes.
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III
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Ser Intolerante
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Para que se aprenda a conviver com o belo em meio ao feio, com os pobres em meio aos ricos, os simples entre os sábios.
Para que a prepotencia e arrogancia dos que se acham melhores que os outros dilua em meio ao liquido amargo da intolerancia.
Para que se aprenda a assentar-se com quem tambem tenha algo a dizer, e não somente ouvir.
Para que, de uma vez por todas, se entenda que os olhos que julgam e definem não são apenas os fixados no espelho.
Para que enfim se cresça, apanhe, caia e levante, para que só assim se alçance um nivel de superioridade e elevação.

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