domingo, 19 de julho de 2009

NORDESTINOS ESCALAFOBETICOS PARTE I

AI FOI QUANDO DESCOBRIRAM QUE A MISERIA DO NORDESTE NÃO ERA TÃO MISERÁVEL ASSIM.
João do vale, em uma cadeira de rodas, pobre e sem toda aquela audiência que é dada para pessoas que cantavam as suas músicas. E foi assim que morreu, sem whiskys caros, apenas sua cachaça sagrada que tomava na Rua da Golada, em Pedreira Estado do Maranhão, com a família, sem muito interesse por quem quer que faça parte de um circulo de pessoas que davam esmolas pro miserável, por ele ter “dado até o que não tinha”.

A música mais famosa de João do Vale, interpretado por figuras como Maria Bethânia é Carcará. Sem falar em pisa na fulo que é fodissima também. Carcará praticamente lançou a Bethânia pra falar a verdade.

Mas o que faz uma música chamada carcará se tornar tão aceitável em uma comunidade urbana onde poucas pessoas já viram um de verdade? Por que os pormenores que caracterizam a identidade de uma gente sofrida é tão significante para a cultura centralizada e urbana?

O que torna uma feiúra tão interessante é a imaginação alienígena, a impressão de uma realidade abstrata e tão chocante para a parte do país onde fica o cu que caga todo o dinheiro.

A arte vista na caveira de um boi sobre uma torrão semi-árido, o jumento amarrado numa cerca com um background de plantas secas e urubus voando no céu, casa de adobe e a velha com a lata de água na cabeça são imagens plásticas para quem está olhando de cima. E neste sentido tudo vira moda. Quer ser artista bom? Canta o sofrimento do nordeste, comece falando do sol que aflige o povo, ou da seca, da plantação perdida, do lago que não dá peixe. Quer ser fotografo reconhecido? Fotografa velhos fumando cigarros de palha com dentes podres e rugas saltando da face, vaqueiro no jumento, caatinga e coisas do tipo.

Na confecção da arte de tornar belo o sofrimento, nem as sandálias e unhas paupérrimas escapam do flash de Sebastião Salgado, por exemplo.

Engraçado é que a arte rica e elitizada, tão inacessível ao pobre nordestino precisa dele. A arte precisa desta miséria para ser arte. Deus seria banido do céu se ouvisse as preces e apelos desse povo, pois estaria ateando fogo sobre uma tela de Portinari e ou Tarsila do Amaral.

No nordeste existe um passaro que quando canta a noite está anunciando alguma morte naqueles dias. A pessoa que está no casebre que ouve o canto logo se benze e não dorme com a preocupação de quem possa ser. Isto é muito forte, o nordestino vê a morte no canto de um passaro e isso é profundo demais para a sustentação da arte, por que o homem do lado de lá só ouve e interpreta samples.

Quando se viaja para a parte do cu do país pouco se traz de souvenirs, mas é uma ida em um pequeno e pobre estado que seja do nordeste que as malas são atulhada de coisas ligadas a miséria e a desgraça: cachaça forte, fumo de corda, pinturas e escultura de velhos, casebre e outras coisas.

Mas o nordestino não tem uma tela que foi pintada inspirada quase que na fotografia de onde vive, por que não pode pagar por ela, por que o artista que pintou não presenteou a nenhum deles, mas ao prefeito, o mecena ou qualquer outro que não entenderá jamais a realidade do que esta ganhando.

Ele não pode ir ao teatro ver uma peça de Severina ou Jose Irece que morrerá tragicamente por uma picada de cobra.

Poucos ainda podem pagar para ouvir um disco que cita até o nome do lago onde ele pesca, por isso ouve a Radio Nacional AM, que tocam outras coisas das quais é discriminado por ouvir.

Então, a coisa vai ficando assim: o que dá dinheiro no mundo artístico é a exploração da imagem nordestina. Não há lugar no mundo que não queira gente que mistura elementos diversos que envolvem baião, forro, maracatu, coco, bumba meu boi e tantos mil e uns estilos incatalogados.

Essa escola abriu as pernas e agora todo tipo de pica entra e a fode. A meu ver, mais pobre do que o que é cantado, encenado ou pintado são os ladrões da dor, que já pegam o cuscuz da panela de Dona Joaquina e só passam a manteiga para os outros comerem. Fora os inúmeros assaltos intelectuais que acontecem neste exato momento em que escrevo este artigo. É sim, sabe-se por ai que artistas falidos ou que nunca foram criativos, viajam interiores a fundo roubando idéias de seu José que tem uma batida diferente no fundo da cabaça e que nem as universidades de tal lugar haviam estudado em suas complexas matemáticas musicais. Daí que aquele figurão com gel no cabelo e gola de camisa como cafajeste vai em tudo o que é programa falando da dor de um povo que não tem a mínima idéia do que seja e se autoafirmando criador da nova batida.

O mais foda desse assalto à mente armada é a falta de piedade, reconhecimento respeito por essa gente. Eu li uma fascículo da Revista Caros Amigos de uma coleção chamada OS NEGROS que tratava sobre a música, na capa é claro Gilberto Gil, em todo o conteúdo, porém SAMBA. E acreditam Senhoras e Senhores NEM UM TIL CITANDO O NOME JACKSON DO PANDEIRO. A Revista Caros Amigos (também de uma certa elite, se pá da mais daninha que é aquela que se assegura como reacionária) esquece que quem conhece o Brasil do Samba é gringo, que do umbigo pra cima dessa porra o que o povo dança é musica de preto, mas não de salão com roupinha branca, é de gente com pé no chão levantando poeira mesmo.
E intrige-se mais ainda, nem fotos nem nada sobre João do Vale e um monte de outros negros que fizeram e fazem coisas da lente da mídia liberal, mas que é, até do mijo deles que ficam ricos e se envaidecem em charutos, bebidas e lugares de requinte.

E foi assim que um dia a arte perpetuou a idéia de que o feio é que é belo. E o velho nordestino continua vivendo um bom par de anos, picando seu fumo e bebendo aquela cachaça forte que ainda enfeita a estante do viajante, mesmo depois de anos, enquanto os artistas de cima morrem envenenados com remédios e neuroses da loucura que absorvem ao se atreverem a serem tão antropofágicos.

Você é artista, mas o que fez nunca te deu retorno? Bora moço! Ta esperando o quê, faz como a maioria dos gênios da arte estão fazendo, pega o lado do nordeste onde fica o fim do arcoiris e encha também seu potinho de outro, pode ir, não acaba não, né como o Samba carioca e a American Bossa Brazilan Music que sempre vão ser só dois peitos flácidos a vida toda amamentando a vaidade dessa elite vagabunda que se denomina classe artística. Pode ir e roubar um pouco lá também, a cultura nordestina é tipo cacimba, quando mais se tira água, mais água tem para dar.

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