sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

QUESTÕES QUILOMBOLAS: CERCAS INVISIVEIS OPRIMEM MEU QUINTAL

Fotos: Renata
FUREM AS MINHAS ORELHAS

No dia 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou o documento que dava direito a liberdade aos escravos. Era o dia da LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS. Só que, a partir daí surgiram dois questionamentos: LIBERTOS DO QUÊ, e também, FAZER O QUE COM ESTA LIBERDADE.

Tanto tempo sem direitos, sem propriedades, fixadas as solas dos pés no chão do Senhor das terras; dependendo, ainda que mirradamente, do pouco, o que fazer com a tal liberdade dada a eles?
A liberdade era o termo traduzido por SOLTURA. Ou seja, é mais ou menos como os casos da libertação de empregados que trabalham em condições sub – humanas em fazendas nas entradas do Norte e Nordeste: a força de policia vai lá, solta os empregados e os devolvem a sua cidade e o que o empregado vai fazer com o tanto de filhos que tem, sem condições de integrar uma sociedade empregadiça tão exigente? Volta a ser escravo, não das fazendas, mas das construções e outros serviços que demandam apenas a força bruta.

No filme UM SONHO DE LIBERDADE existe uma discussão mais ou menos em torno disso. Um velho que há muito tempo trabalhava na biblioteca da penitenciaria e, de certa forma, era respeitado por todos ali dentro, não conseguia mais viver fora. No dia que foi assinada sua liberdade, encontrou lá fora um mundo novo, diferente de quando ele entrou. Na tentativa de se inserir e não conseguindo, preferiu mil vezes voltar para a penitenciaria, mas sendo impossível, enforcou-se no cubículo onde estava. O termo usado no filme é INSTITUCIONALIZAÇÃO. Quando o sujeito a muito tempo vivendo dentro de um sistema não consegue mais levar uma vida fora, mesmo que ali não seja o melhor do lugar do mundo para os outros.

Na libertação dos escravos, muitos preferiram abdicar da tal liberdade e ofereciam-se espontaneamente para ficar com os patrões. Na Bíblia há relatos semelhantes entre o povo Judeu. A cada sete anos os escravos ganhavam a liberdade para ir embora, mas muitos preferiam ficar, porém, a lei mosáica os submetiam a uma marca, eles deveriam FURAR A ORELHA e colocar um tipo de alargador ou coisa parecida para justificar sua decisão de não optar pela liberdade.

Ontem, 8 de janeiro de 2009, os principais jornais do Estado anunciavam a volta da comunidade Quilombola do Grotão, próximo ao Município de Filadélfia no Tocantins para suas terras. A volta é por que anteriormente haviam sido expulsos, não de forma pacifica, de um território que era ocupado por todas as gerações de suas famílias em um período de 200 anos.
A comissão da pastoral de terra relata o fato:

“Remanescentes de escravos da comunidade quilombola de Grotão, no município de Filadélfia, estado do Tocantins (TO), estão sofrendo com ações de criminalização. Na comunidade vivem aproximadamente dez famílias quilombolas. Elas receberam o certificado da Fundação Cultural Palmares em outubro desse ano, mas, por não terem a posse definitiva da terra, foram expulsas de seu território nesse mês. As famílias contam que tiveram suas casas, roupas, mantimentos e lavouras de arroz queimadas.
A retirada das famílias foi pedida por uma ação de reintegração de posse encaminhada à justiça. Ela foi encaminhada pelos fazendeiros Raimundo José de Brito e Cirilo Araújo de Brito. A ação foi aceita pelo Juiz da comarca de Filadélfia, Ricardo Damasceno Almeida. Para o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Araguaína (TO), Edmundo Rodrigues Costa, a situação das famílias é desumana.
‘A situação delas no momento é das piores possíveis. Elas estão em um ginásio aberto onde inclusive, já jogaram uma bomba caseira lá dentro. É preocupante. Nenhuma autoridade está se preocupando em resolver esse problema para que elas possam voltar suas terras. O juiz que concedeu a reintegração de posse faz parte do sindicato rural aqui de Araguaína’.
A CPT agora espera pelo julgamento de uma ação enviada pela entidade há 15 dias ao Tribunal de Justiça do estado. A ação pede a anulação da reintegração de posse”.


Fonte:
http://www.cptpe.org.br/modules.php?name=News&file=article&sid=1696

A noticia do retorno dos Quilombolas do Grotão às suas terras:

Quilombolas do Grotão poderão retornar para suas terras
05/12/2008 - Josélia de Lima - Leituras: 122
Uma esperança para as 10 famílias que foram desapropriadas da Comunidade Grotão, no município de Filadélfia, no Tocantins, a 479 km da capital Palmas. Elas poderão retornar para suas terras logo que o Incra fizer uma remarcação da área. A informação foi dada pela subsecretária da Cidadania e Justiça e superintendente de Promoção dos Direitos Humanos, Dulce Mª de Palma Pimenta Furlan, que está acompanhando o caso.
A Secretaria da Cidadania e Justiça, por meio da Coordenação Afrodescendentes, fez algumas intervenções para viabilizar a solução do caso. Na semana passada, o coordenador Afrodescendentes, Luiz Carlos Benedito, esteve conversando com as famílias, que estão alojadas numa quadra de esportes, em Filadélfia, e na ocasião entregou 30 cestas básicas.
Dulce Furlan conversou com o juiz e explicou que só está faltando o Incra do Tocantins fazer uma nova demarcação das terras, para a autorização do retorno das pessoas para uma área reservada aos quilombolas.
As famílias foram retiradas de suas terras, no dia 8 de outubro de 2008. Na ocasião permaneceram no local Raimundo José de Brito e Cirilo Araújo de Brito, parentes dos desapropriados. As famílias haviam pedido ao juiz, por meio do defensor público, a possibilidade de ficarem próximo dos dois moradores.
O Grotão está localizado a 94 km de Filadélfia, cidade que está situada na região Nordeste do Tocantins.

Fonte:
http://secom.to.gov.br/noticia.php?id=23072

Mas agora voltamos a questão anterior: Compensa apenas colocar esse povo de volta a terra e não garantir segurança e assistência social necessária a sua sobrevivência?

Com o retorno dos Quilombolas as suas terras não se resolve um problema cria-se outro. Alias, cria-se não, traz-se a tona uma praga já existente nas comunidades assentadas: A INSTIGAÇÃO DOS FAZENDEIROS.

Porteiras que mandam a mensagem: até aqui senhores. O chão que te pertence por ti não pode ser pisado.

A briga dos fazendeiros com as comunidades é a luta pelo direito a terra. Os fazendeiros dizem que a terra pertence a eles e que os Quilombolas precisam sair. A justiça quando reconhece o direito das comunidades de ficar nas terras, indeniza os fazendeiros pela extensão de territórios que perdeu, e é ai que começa um dos problemas, pois, para ter maior pedaço de chão os fazendeiros empurram cercas limitando, queima casa e expulsam as pessoas para ter direito a uma indenização maior. Denunciar? Já foram feitas várias denuncias, mas nada.

Documentos com as acusações contra as agressões dos fazendeiros as comunidades Quilombolas

Outra questão é a forma como a terra é devolvida, pois, quando os fazendeiros tomam suas terras, conseguem um terreno fértil, cerrado puro, chão de ouro, fontes de águas e coisas do tipo, mas quando devolvem, entregam uma chão saturado, esgotado, estéril, pois o que antes era uma terra frutífera virou pasto e não serve mais para produção.

A justiça deveria assistir esse povo não como uma questão de quem é dono ou não. São pessoas, cidadãos, vitimas, comunidades; gente que precisa de amparo independente de qualquer coisa. É uma questão humanitária. Se não querem ouvir os seus gritos por questões políticas, que ouçam por uma questão de Justiça. Ninguém merece ter seus bens espoliados, suas famílias ameaçadas e suas posses queimadas.

Materia em do jornal com denuncias contra as invasões as comunidades

Por que não saem e constroem suas vidas fora? Por que não vão para a cidade mais próxima e procuram levar uma vida sem conflitos? Ora, suas orelhas estão furadas. São instituinalizados por uma condição obvia: NÃO SABEM O QUE FAZER COM ESSA TAL LIBERDADE. É preferível ficar e enfrentar as cercas que limitam os seus quintais.

A capela, o terreiro, o poço, a fabrica de farinha a plantação, suas rezes, entre outras coisas são os elementos que compõe suas vidas a centenas de anos, não tem como simplesmente correr daquilo que estão acostumados a labutar.


Correr para onde? Brigar de que forma? Não senhor! Fure as minhas orelhas, deixe-me carregar as marcas da escravidão e do sofrimento, pois, melhor é comer o pão que o diabo não amassou, já que nem amassado está o pão a ter que encarar o mundo daqueles que criam Leis que para nada servem. Não senhor. Fure minhas orelhas, deixe-me dormir com o cheiro da fumaça entrando pela janela de trás da cabana a ter que enfrentar o fogo das ordens injustas que pervertem o direito do bem em favorecimento dos ricos insensatos.

Não senhor. Fure as minhas orelhas, por que melhor é seguir a sina dos antepassados de enveredar mata adentro para salvar a vida do que ser subjugado pelos grilhões dos sistemas urbanos que executam sem piedades os que não lêem as suas cartilhas.

Não senhor! Fure as minhas orelhas. Se querem nos dar liberdade, que seja aqui, e que seja do modo que tem que ser. Daqui não saímos e não queremos nada mais alem daquilo que já nos foi garantido pela lei da vida: O DIREITO DE PLANTAR E COLHER NO TORRÃO QUE NOS PERTENCE POR HERANÇA.

5 comentários:

Remo Augusto disse...
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reuel disse...

HAIUAHAUIAHUIH...puta que pariu remo...

Renata disse...

Vale a pena ressaltar a citação do coordenador-executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Ronaldo dos Santos:

“Apesar de morar em um espaço, utilizamos outros espaços para extrativismo, pesca, terreno sagrado, cemitério antigo e outros fins. Há comunidades, por exemplo, que são nômades. Esses espaços são necessários para nossa continuidade como grupo e isso não tem lógica para o branco. Temos o território como uma coisa sagrada. A terra é nossa mãe e não podemos vender ou dar a mãe”.

Essa fala nos remete a importancia da defesa dos direitos dos povos tradicionais, internacionalmente reconhecida(as etnias indigenas, ribeirinhos, quebradeiras de babaçu, pescadores artesanais, camponeses, faxinalenses, ciganos, remanescentes de quilombos e demais)é a defesa de nossa floresta nativa, de nossa música, dança, de nossa essência, espiritualidade, modo de vida, pois somos herdeiros dos conhecimentos milenares... sem os esforços e resistência dos povos ou sociedades anteriores a nós muito pobre seriam as manifestações culturais das quais desfrutamos hoje...
se pensarmos que a terra é de quem nela vive e produz, ficaria fácil tomar partido nessas questões fundiárias, é o chamamos de FATOR SOCIAL DA TERRA - importante para proteger a vida no futuro. Mas nossa sociedade, de maneira hegemonica, coloca o poder na mão do agronegócio, defende o latifúndio, incentiva multinacionais que desmatam nossas florestas nativas e implantam, de maneira legitimada, programas de reflorestamento com eucalipto por exemplo... no Brasil a chamada Bancada Ruralista tem grande poder de decisão e atua para descontruir ações de reforma agrária e outras que desfavorecem o acumúlo de capital/propriedade, como as ações dos movimentos de agricultures sem - terra.
Optando por aquela linha, o país entrega aos de fora as riquezas que ainda restam, dando continuidade aos demandos da colonização...e vai matando um por um daqueles que atuam como guardiões da natureza, pois ao viverem de forma sustentavel e harmoniosa com o meio, assumem esse valioso papel, que deveria ser valorizado e levado a sério principalmente pelo Estado. Mas como não podemos exigir que advogados, doutores, diplomatas, empresários, deputados e senadores tenham a grandeza de espírito, a complexidade e a inteligência do homem do campo, do negro do campo, do xerente da aldeia, do ribeirinha, enfim...continuemos lutando!

Cachoeira disse...

"Assim como o cal desprende da parede, apodrecerá a cerca da violência, que foi erguida na fronteira, para manter longe a justiça!"
Já dizia Bertold Brecht
Resitir e Lutar!
Belíssimo ensaio...parabéns a revista!

Remo Augusto disse...

Sem os quilombolas, não existe Rock, literatura, teatro ou cinema!
Salvem os quilombolas

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